1. Introdução
Determinar as verdadeiras raízes históricas da Augusta Ordem foi tarefa que sempre se debateu com um obstáculo aparentemente insuperável, pois factos verídicos aparecem muitas vezes intrincados numa enorme variedade de elementos lendários.
Uma tentativa de compreender e explicar as origens da Maçonaria leva-nos a procurar interpretar, no contexto da sua época, a vasta literatura produzida pelos maçons desde o século XVII e, sobretudo, do início do século XVIII. Em busca de legitimidade histórica e filosófica para uma Ordem iniciática que então estavam a (re)organizar, os maçons seiscentistas e setecentistas fizeram remontar a “tempos imemoriais” o início da Maçonaria, o que era reforçado pelo simbolismo do ritual seguido nas reuniões daqueles nossos ilustres antecessores.
Foi assim que os maçons modernos se auto-proclamaram herdeiros directos dos antigos sacerdotes egípcios, dos essénios, dos druidas, de Zoroastro, de Salomão, das tradições herméticas, da Cabala, dos Templários, de tudo enfim que estivesse coberto pelo manto de um qualquer saber esotérico.
Já no início do século XIX, o maçon luso-brasileiro Hipólito José da Costa, grão-mestre provincial da Província de Rutledge, da Grande Loja Unida de Inglaterra, nas “Cartas sobre a Framaçonaria”, apontava quatro versões correntes nos meios maçónicos sobre as origens:

  1. o Egipto dos primeiros faraós, cujos sacerdotes teriam criado os graus e realizado cerimónias de iniciação;
  2. o reinado de Salomão, nos tempos e lugares bíblicos;
  3. a França de Filipe, o Belo, no início do século XIV, atribuindo a criação da Ordem aos Templários;
  4. a Inglaterra de Carlos I, durante a Guerra Civil de meados do século XVII, sendo o chefe dos parlamentares, Cromwell, um dos principais fundadores.

Nas palavras de Hipólito da Costa, a utilização de um passado “perdido” não era um exclusivo da Maçonaria, mas sim “uma mania geral”, que conduzia os homens e as nações a uma busca incessante pela antiguidade da sua origem. De uma mitologia convertida em historicidade forçada com o objectivo utilitário de reforçar a sua identidade, diríamos hoje

2. Dos operativos aos “aceites”
A Maçonaria operativa foi mais uma corporação medieval entre tantas outras. Com uma diferença… que faz toda a diferença. Construiu uma tradição – uma narrativa das origens – muito mais elaborada, complexa e ambiciosa do que as outras corporações do seu tempo (dos ourives do ouro ou da prata, dos tanoeiros, dos ferreiros, dos cervejeiros, etc.).
Os maçons operativos, os que talhavam a pedra, eram artífices altamente especializados numa profissão muito valorizada – mas não eram ainda os pedreiros-livres. No entanto, o seu modo de vida era raro para os padrões medievais. Enquanto a esmagadora maioria da população, incluindo os outros artesãos, era capaz de passar toda a vida sem se afastar do lugar onde nascia e morria, os mestres canteiros mudavam constantemente de terra e de patrão, à procura de um lugar onde a sua arte tivesse procura. Esta predisposição para a mudança, esta abertura à novidade e à aprendizagem conferia imprevisibilidade à vida dos maçons operativos. Ao mesmo tempo, esse nomadismo que os afastava da família por longos períodos criava a necessidade de outras formas de sociabilidade. A fraternidade maçónica representou assim “uma espécie de família
artificial”, cujos membros estavam unidos não pelo sangue, mas por interesses comuns reforçados por juramentos e rituais.
A loja era o atelier dos maçons, onde talhavam a pedra a coberto do sol, da chuva e do vento – e também dos curiosos que, não pertencendo à corporação, podiam querer violar os segredos do ofício. É natural que o mesmo lugar servisse também para os maçons tomarem as refeições em conjunto e para confraternizarem.

Tal como outros ofícios medievais, os maçons tinham os seus documentos históricos, onde se sublinhava a antiguidade, as tradições, a importância religiosa e a moral do seu trabalho. Um elemento distintivo dos maçons escoceses do século XV era a história mítica do seu ofício, contida nos ‘Old Charges’. As lendas medievais que faziam a narrativa das origens com referências à construção do Templo de Salomão e ao Antigo Egipto incorporaram contribuições posteriores, estruturando a instituição e elaborando rituais e procedimentos secretos para reconhecimento mútuo.

A mística que rodeava a corporação – a que não seria alheio o papel-chave desempenhado pelos maçons operativos na construção das catedrais – atraiu homens com meios de subsistência que não o trabalho manual, com bagagem cultural e vontade de intervenção na sociedade, a coberto de um saber oculto. As reuniões, inicialmente em estalagens e tabernas, passaram a realizar-se em cafés ou em casas particulares, com a designação de lojas. Os pedreiros, membros “antigos” da corporação, começaram a recrutar e a acolher no seu meio não pedreiros – os “aceites”.
Foi o período de transição que abriu caminho à maçonaria em que tudo o que dizia respeito ao trabalho operativo (do saber prático às alfaias e aos paramentos do trabalho) ganhou um valor simbólico. Os “antigos” e os “aceites” passaram a reunir-se em loja para discutir (especular sobre) assuntos de interesse comum (cívico, cultural, científico, filosófico) e confraternizar – hoje dir-se-ia “socializar” – no âmbito de um rito e segundo um ritual estritamente codificado. E, atendendo aos constrangimentos políticos e religiosos da época, necessariamente secreto. A Maçonaria tornou-se especulativa

3. Escócia ou Inglaterra?
Para alguns investigadores, foram os jacobitas, partidários dos Stuarts destronados pela Revolução Inglesa de 1688 e refugiados na Escócia que criaram a Maçonaria moderna, significativamente disseminada pelas lojas militares. Essa seria a origem da Maçonaria escocesa, que se estendeu a França por acção dos jacobitas exilados: a loja La Bonne Foi, a Oriente de Saint-Germain-en-Laye, ergueu colunas a 25 de Março de 1688, composta exclusivamente por maçons especulativos.
Outra corrente, porém, considera que a Maçonaria só se pode considerar como tal a partir de 24 de Junho de 1717, quando, nesse dia de S. João, as quatro Lojas de Londres se uniram para formar a Grande Loja de Inglaterra, marco fundador da fase especulativa. O trunfo principal dos defensores desta tese é a publicação, em 1723, das “Constituições de Anderson” pelo pastor presbiteriano James Anderson, a “carta magna” da Ordem.
A favor dos defensores da precedência escocesa na origem da Maçonaria especulativa está o facto documentado de ter sido na Escócia, em fins do século XVI e início do século XVII, que surgiram alguns dos ingredientes essenciais da Maçonaria moderna: o primeiro uso da palavra Loja no sentido maçónico moderno; as primeiras actas; as primeiras tentativas de organizar Lojas de âmbito nacional; ou os primeiros exemplos de maçons “não-operativos”.

O primeiro “maçon aceite” de que há notícia histórica foi John Boswell d’Auchinleck, recebido na Loja de Edimburgo, na Escócia, a 8 de Junho de 1600. Em Inglaterra, a primeira aceitação documentada foi de Sir Robert Moray (conhecido por ser, pelo menos, simpatizante da filosofia Rosa-Cruz), recebido numa loja de Newcastle, a 20 de Maio de 1641.

A recepção de Elias Ashmole (1617-1692) como “maçon aceite” é duplamente importante para a História da Maçonaria.

Em primeiro lugar, porque se trata de uma figura de primeiro plano na história da cultura inglesa. Um “antiquário” – o que corresponde, em termos actuais, a um homem de cultura multifacetado, erudito e investigador -, reuniu uma colecção arte, livros raros, manuscritos e objectos curiosos que deixou à Universidade de Oxford, num museu concebido pelo arquitecto Christopher Wren – outro destacado maçon, autor da Catedral de S. Paulo, em Londres.

Em segundo lugar, porque registou no seu diário dois testemunhos directos que comprovam a existência de maçons especulativos em meados do século XVII.

A 16 de Outubro de 1646, conta Ashmole, foi “feito maçon” (made a Freemason, no original), pelas quatro da tarde, em companhia de Henry Mainwaring, pelos membros da Loja de Warrington. A título de curiosidade, note-se que, em plena guerra civil inglesa, são recebidos na mesma loja maçónica um oficial do exército realista (Ashmole era capitão ao serviço do rei Carlos I, que seria decapitado em 1649) e outro do exército parlamentar (Mainwaring era coronel das tropas chefiadas por Cromwell).

Muitos anos depois, o mesmo diário regista, no dia 10 de Maio de 1682, “por volta das 5 horas da tarde”, que o autor recebeu uma convocatória para se apresentar numa sessão de Loja no dia seguinte, no Mason’s Hall, em Londres. “Consequentemente, compareci à reunião e, por volta do meio-dia, foram admitidos (admitted, no original) na Fraternidade dos Maçons: Sir William Wilson, Cavaleiro, o capitão Richard Bortwick, M. Will Woodman, M. Wim-Grey, M. Samuel Taylor e M. William Wise. Eu era o decano (senior Fellow) dos presentes, pois já faz trinta e cinco anos que fui admitido. (…) Fomos todos almoçar na Taverna da Meia-Lua, em Cheapside, reunidos num banquete solene, cujas despesas correram por conta dos novos Maçons Aceites (Accepted)”

4. Luzes e sombras
O século XVIII, “Século das Luzes”, assistiu a uma grande expansão da Maçonaria. O conjunto de influências medievais, renascentistas e iluministas combinou-se na Ordem para reflectir o espírito de progresso característico da época, com ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, tolerância e razão. Nunca é demais lembrar o papel da Maçonaria – dos maçons intervenientes no mundo profano – em processos e acontecimentos marcantes da História da humanidade, como a independência dos EUA, a Revolução francesa, as revoluções liberais de Espanha e Portugal em 1820, as independências do Brasil e das repúblicas da América Latina, as revoluções europeias de 1848 conhecidas como a “primavera dos povos” ou a unificação italiana.
Mas esse protagonismo teve um efeito secundário: a Ordem transformou-se num pólo de atracção para numerosos ocultistas, magos, alquimistas, cabalistas, etc. O caráter pluralista da Maçonaria especulativa proporcionou uma estrutura institucional

excêntrica, onde as mais diversas religiões e crenças políticas podiam ser acolhidas. Parecia que o sistema de Lojas, encoberto pelo mistério, ideais de lealdade e fórmulas secretas de reconhecimento, tinha criado uma organização perfeita, cujos membros podiam incorporar novos valores e adaptá-los para usos pessoais. Devido à sua abrangência institucional e à variedade dos seus componentes, a Maçonaria nunca foi capaz de atingir uma homogeneidade interna. Muitas vezes era o posicionamento individual dos seus membros que determinava os rumos da Ordem (científica vs. pseudo-científica; liberal vs. absolutista).

Com o tempo, as divisões multiplicaram-se e as partes em litígio formaram obediências maçónicas distintas, concorrentes e muitas vezes rivais.
A primeira grande cisão da Maçonaria ocorreu em Inglaterra, alguns anos depois da segunda edição das Constituições de Anderson. Os maçons ditos “antigos” acusavam os “modernos” de descristianização do ritual e de traição ao verdadeiro sentido da instituição. Em 1751, o grupo descontente fundou a Grande Loja dos Antients, ou maçons antigos, em oposição à Grande Loja da Inglaterra. A divisão só foi ultrapassada em 1813, com a formação da Grande Loja Unida de Inglaterra

5. A multiplicação das obediências em Portugal
Em Portugal, a primeira obediência, o Grande Oriente Lusitano (GOL), foi fundada em 1804. Em 1817, o grão-mestre, general Gomes Freire de Andrade, é enforcado por ter chefiado uma conspiração contra o governo manipulado pelos ingleses, que dominavam Portugal desde as invasões francesas.
Também no nosso país as divisões entre maçons, muitas vezes resultado de ambições pessoais, deram origem a cisões que levaram à constituição de diferentes obediências – e não foram estranhas a perturbações políticas e sociais no mundo profano, desde a dissidência da Loja Regeneração contra o GOL, logo em 1821.
Ao longo da monarquia constitucional (1834-1910), é curioso notar o paralelo entre a turbulência nos meios maçónicos e a correspondente agitação na política profana. Passos Manuel, grão-mestre da Maçonaria do Norte entre 1834 e 1852, vai governar Portugal na sequência da “Revolução de Setembro” de 1836. O líder da setembrista (“esquerda”) perde o poder para o cartista (“direita moderada”) Costa Cabral – entretanto eleito grão-mestre do rival GOL em 1840 (até 1846, o ano da revolta da Maria da Fonte) e de novo em 1847-1849 (depois da guerra civil da Patuleia).
Além do GOL e da Maçonaria do Norte, coexistiram no mesmo período – escassas quatro décadas – a Maçonaria do Sul, mais conhecida por Oriente Saldanha, por ter sido fundada e dirigida pelo general (futuro duque de) Saldanha (1828-1849); o Grande Oriente de Portugal (1849-1867); o Grande Oriente do Rito Escocês (1840-1885); a Grande Loja Provincial do Oriente Irlandês (1842-1872); a Confederação Maçónica Portuguesa (1849-1867); o Grande Oriente da Maçonaria Ecléctica Lusitana (1853 – década de 1860); a Federação Maçónica (1863-1869); e o Grande Oriente Português (1867-1869). A maioria destas obediências negociou a unificação em 1869, dando origem ao Grande Oriente Lusitano Unido, que voltou a dividir-se pouco depois. Sectores da Maçonaria, designadamente a Loja Montanha, com ligações à Carbonária, estiveram envolvidos no regicídio de 1908. A Ordem teve um papel preponderante na implantação da República, em 1910. Um maçon, Sidónio Pais, procurou limitar a influência da Maçonaria nas actividades profanas da I República. Foi assassinado em 1918 – e o nome de outro maçon, o grão-mestre Sebastião Magalhães Lima, apareceu envolvido com o do autor material do crime. Paradoxalmente – ou talvez não tanto – foi também um maçon, o general Oscar Carmona, que em 1935, na qualidade de Presidente da República, assinou a legislação que proibiu a Maçonaria

6. Conclusão
A história da Maçonaria, tal como a conhecemos, como Ordem iniciática com os seus ritos e rituais, é a história da Maçonaria especulativa.
Os textos que fazem remontar as origens da Maçonaria à mais longínqua Antiguidade devem ser lidos com o mesmo cuidado com que lemos a Bíblia. Tal como os fundamentalistas cristãos (sobretudo protestantes, porque a heurística e hermenêutica da teologia católica ultrapassaram já essa posição) fazem uma interpretação literal do Antigo Testamento, evidenciando um quadro mental pré-moderno e pré-científico, assente na crendice e na superstição, também há maçons que acreditam piamente nas lendas contadas nos nossos textos fundadores. Esses textos foram escritos pelos nossos irmãos que construíram uma narrativa poética, recheada de parábolas, imagens e metáforas sobre a origem da Maçonaria. Uma origem, nunca é demais sublinhar, mítica e não histórica. Mas, infelizmente, aproveitada com frequência por charlatães que infiltraram a Ordem à procura de satisfazer interesses profanos à custa de crenças para- religiosas, formas de pensamento pseudo-científico, obscurantista e supersticioso que a Maçonaria sempre combateu.
Dito isto, o que também nunca é demais sublinhar é o orgulho que nós, maçons, devemos ter nessas lendas, nessas narrativas míticas que fazem parte da nossa identidade. Foram elas que forneceram os elementos simbólicos indispensáveis para a instituição de uma Ordem iniciática que, no contexto do seu tempo, teve um papel único e insubstituível na luta contra o fanatismo e a intolerância, produtos da crendice e da superstição – o “infame”, na feliz designação do irmão Voltaire.
A Maçonaria esteve e estará sempre do lado das Luzes, da Modernidade, da conquista de novas fronteiras do progresso científico. A sua dimensão esotérica só se compreende à luz do simbolismo. O caminho do aperfeiçoamento espiritual que todos nós percorremos simbolicamente desde a câmara de reflexão, sob a égide do V.I.T.R.I.O.L., constitui a mais bela metáfora do processo milenar de conhecimento da natureza, da humanidade em geral e de cada pessoa, de cada um de nós, em particular.
Disse.

Hipólito, M.M.

Para saber mais
COMBES, André.
Les trois siècles de la Francmaçonnerie française. 3.ed. Paris: EDIMAF, 1998.
COSTA, Hipólito José da.
Cartas sobre a Framaçonaria. Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de Seignot-Plancher e Ca., 1833.
COSTA, Luiz Mário Ferreira. “A Maçonaria operativa e especulativa: Uma discussão em torno das origens da Ordem”.
C&M – Revista Ciência & Maçonaria. Brasília, Vol. 2, n.1, p. 65-72, jan/jun, 2014.
MARQUES, A. H. de Oliveira.
História da Maçonaria em Portugal. 3 vols. Lisboa: Editorial Presença, 1990-1997.
STEVENSON, David.
The Origins of Freemasonry. Scotland Century 1590-1710. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.